EU DANCEI NA MISSA
Compartilho uma experiência de ancestralidade que vivi no início de 2025, durante um evento na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos*, em Salvador. Após o evento, todos decidiram ficar para a missa da terça-feira da bênção, um momento especial do culto. Durante o ofertório, observei a oferenda de pães e a dança de gratidão de homens e mulheres negros, ao som de instrumentos de percussão.
Um rapaz do grupo me provocou para dançar, e eu aceitei, movida pela alegria e pela sensação de conexão profunda com o sagrado que escolhi para adorar: Jesus. Naquele momento, senti uma ligação especial com a celebração, como se estivesse vivenciando a forma como africanos e africanas expressam sua fé durante o ofertório. Embora não seja africana, como afrodiaspórica nascida e criada em Salvador, a cidade mais negra fora da África e com forte influência iorubá, senti uma profunda felicidade.
Acredito que, durante a travessia forçada do Atlântico, nossos ancestrais, espalhados pelas Américas, abraçaram diferentes experiências de fé, incluindo o protestantismo. Observo como a ancestralidade africana se manifesta nos corpos negros, especialmente nas igrejas pentecostais. A forma como vivenciamos o sagrado transcende a interpretação eurocêntrica e estadunidence branca, das escrituras. A Teologia Negra consegue dialogar com a ancestralidade afrodiaspórica presente nas igrejas evangélicas.
Ao assistir a vídeos de cultos pentecostais nas redes sociais, me deparo com comentários que os chamam de "candombléia". Isso me leva a refletir sobre o quanto ainda precisamos avançar na compreensão da diversidade religiosa na diáspora africana. A gira, os instrumentos percussivos e as roupas são algumas das evidências da ancestralidade afrodiaspórica de como esse negro pentecostal cultua ao Senhor Jesus.
* A igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, foi fundado em 1685, na cidade de Salvador(Ba), por negro escravizados do Congo e Angola.
Gicélia Cruz
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