PODE EVANGÉLICO TRABALHAR NO CARNAVAL?
Convido você a refletir comigo sobre uma questão que surge
frequentemente no meio evangélico: a participação de crentes no Carnaval por
questões econômicas.
Certa vez, enquanto mediava uma feira de conhecimento
bíblico, mencionei que conhecia evangélicos que trabalhavam no Carnaval devido
à vulnerabilidade socioeconômica. Ao final do evento, um rapaz se aproximou de
mim e disse: "Irmã, eu acho errado evangélico trabalhar no Carnaval."
Ao olhar para aquele homem negro, pensei: "Meu Deus, no momento não tenho
tempo para explicar direitinho." O ideal seria oferecer uma oficina com
conteúdos sobre gênero, raça e classe para contextualizar melhor essa
realidade.
Mas podemos refletir um pouco por aqui...
O percentual de pessoas negras evangélicas é significativo
no Brasil (Censo IBGE, 2010). No entanto, isso não altera a vulnerabilidade
socioeconômica desse grupo, especialmente nas áreas de educação, saúde,
segurança e empregabilidade. Como pesquisadora da conversão de negros ao
protestantismo na Bahia e professora especialista em Educação de Jovens e
Adultos (EJA), conheço bem o perfil desse público. A realidade é que muitas
pessoas negras ainda enfrentam altos índices de baixa escolaridade, principalmente
devido à necessidade de subsistência, que as obriga a abandonar os estudos
precocemente para trabalhar.
Durante esse percurso, muitos se convertem ao evangelho,
passam a frequentar a igreja, dedicam-se à leitura da Bíblia, mas demoram a
retornar à escola para concluir os estudos. Em cidades como Salvador, cuja
economia no verão gira em torno do turismo, surgem diversas oportunidades de
emprego temporário. E o que acontece com o negro evangélico com baixa
escolaridade e desempregado nesse período?
Muitas igrejas pequenas, situadas em periferias, não têm
recursos para promover retiros espirituais, que costumam ser caros. Assim, a
alternativa para muitos irmãos e irmãs é trabalhar no Carnaval: vendendo água,
geladinho, suco, cachorro-quente e churrasquinho (sempre acompanhados de um
folheto e um "Jesus te Ama"); dirigindo trios elétricos; atuando como
auxiliares de serviços gerais (ASG) em camarotes; trançando cabelos; costurando
e customizando abadás, entre outras atividades.
Portanto, sim, o negro evangélico também trabalha no
Carnaval. E, na quarta-feira de cinzas, muitos realizam seu "culto
individual" de gratidão ao Senhor Jesus pela oportunidade de trabalho,
ainda que temporária.
"E conhecereis a verdade, e a verdade vos
libertará." (João 8:32)
Gicélia Cruz

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